O simples começo: Respirar Atentamente


A orientação para iniciar é muito simples: concentra no ato de respirar naturalmente e evita controlar a respiração.


Percebe, então, a sutil sensação do ar entrando e saindo pelas narinas. Apenas observa seu ritmo agora.


Durante o exercício é normal que pensamentos surjam. Você pode ser sugada pelos pensamentos que passam na mente e se identificar com o que pensa de modo tal que quando vê, já está longe. Esta é a hora boa de praticar gentileza; a atenção foi desviada e com gentileza traz ela de volta para a respiração. Sem julgar a si mesma, não precisa se culpar nem conversar internamente. Simplesmente traz a atenção de volta com gentileza e nada mais.


Pronto, é só isso. Pronta?


Porém para muitas e muitas pessoas nem sempre é mesmo simples o que parece simples.

Lúcia começa a contar sua história. “Trabalho muito fora - e dentro, de casa; tenho filhos para cuidar, mas estou sempre impaciente. Sei que preciso desestressar”. Pára um pouco e dispara em seguida, “Mas se não tenho tranquilidade para lidar com quem amo, como justamente eu posso meditar?” e finaliza soltando o ar pela boca e depois diz:“ Não consigo meditar.”


Interessante que Lúcia tenha soltado o ar. Pareceu uma tentativa de descarregar tensão através deste gesto. Soltar o ar que está preso é um gesto quase orgânico.


A respiração é um bom começo. Para algumas pessoas, soltar o ar pode ser uma pequenina preparação para depois observar simplesmente o ar que entra e o ar que sai dos pulmões.

Este é um jeito possível para em seguida respirar livremente enquanto presta atenção à própria respiração, estando ela da maneira que estiver.


Era assim que Lúcia gostava de começar, expirando primeiro 3 vezes como uma maneira própria de preparação. Esse é um modo possível.


Como está a sua respiração agora, por exemplo? Experimenta perceber? Agitada, fraca, curta... E agora, depois de focar, atendendo ao meu pedido, como está? Algo mudou? O que você percebe? É possível que apenas agora você esteja observando este simples movimento fundamental. Talvez você esteja procurando parar a pressa no teu respirar ou tentando esticar a inspiração ou a expiração. Não precisa, apenas observa como a respiração está. O que acontece? Será que o fluxo de entrada de ar muda? Como você fica ao observar?


E se apenas escrevo a palavra respiração e atento para o ar que entra e sai, estou aqui. Sons, movimentos externos, sensações, pensamentos me levam daqui de onde estou, sim, mas eu volto, gentil, para onde estou, para minha respiração. Então mais uma vez tendo a expirar longamente, e assim eu faço. Depois me lembro, gentil, que preciso atentar para a respiração natural. Atento, gentil, bem gentil.


É importante que seja gentil. Finda sempre mais fácil se você se chama à própria atenção gentilmente. Nada de carões, atentar com carinho, gentileza. Mas esta não é nossa tendência. Tendemos facilmente ao extremo rigor quando falamos em pensamentos conosco. Já aconteceu de se perceber dando ordens a si mesma internamente, e se auto-julgando? Aconteceu alguma vez de, depois de tentar sentar e respirar, finalizar com uma condenação: “não consigo meditar”?


Por isso para iniciar é muito bom conversarmos sobre a gentileza. Aprender a ser gentil consigo é um segredo precioso para praticar meditação. “Mas gentileza como?” Falar consigo mesmo com carinho. Um tom gentil.


Com certo tempo de prática, a gentileza chega naturalmente e brota da renovação profunda que proporciona a meditação. Praticar a observação da própria respiração, com persistência e leveza nos leva a um estado de gratidão que a atitude gentil é apenas uma decorrência. Mas no início precisamos praticar, e se preciso, até simular, uma voz gentil conosco mesmo. Porém não falo em você se exigir gentil, ou ser gentil com certa perfeição cheia de rigidez. Caso isso venha a acontecer, lembre do toque suave da brisa em seu rosto trazendo o frescor da manhã e seja singelamente gentil para começar. Sentiu a brisa na face? Atenta para o ar nas narinas, e pode começar de novo, e de novo, e de novo.


Pode ser um tipo de encenação interna só pra ir pegando o jeito. Ah! E Refresca, também, uma pitada de humor. Acredite, pode ser que você pegue o jeito de uma hora para a outra. Quem sabe, talvez até ache bem fácil, depois. O corpo sai do estado de alerta com essa gentileza e vai entrando em uma atenção tranquila, disponível, boa.


É possível se tratar com carinho para começar?


Pois bem, vamos assim praticando um estado de conforto ao sentar para respirar com atenção, atenciosamente. Ao invés de um susto de uma bronca, a condução de volta para o ar que flui pelo nariz.


Uma dádiva poder ser gentil por um soltar natural das tensões. Aqui reencontramos Lúcia. Naquele dia que ela parou de levar tudo tão a sério por um instante, e apenas largou as determinações e julgamentos, respirou naturalmente e aliviada. Depois se acomodou na cadeira e seguiu focando o ar que entrava e saia de suas narinas até o sino tocar, avisando que se passaram 15 minutos.


Paula Lira é psicóloga e artista; praticante de meditação há 15 anos, profissional colaboradora de Mindfulness pelo Instituto Atentamente de práticas meditativas em saúde e resolveu morar com a família num lugar onde acorda pela manhã escutando o som dos pássaros.

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