ESPIRITUALIDADE LAICA E A BUSCA DA VERDADE

Atualizado: 2 de Abr de 2019

A seleção dos impulsos e reações emocionais do ser humano foi principalmente pautada para sobrevivência da espécie, herdamos por exemplo o viés negativo de tender ao pensamento catastrófico, a confundir gravetos por cobras. Em outras palavras o que nos atrai e nos repele tem muito mais relação com a sobrevivência de nossa família no passado longínquo do que com a busca da sabedoria espiritual e do conhecimento científico.

A busca pela verdade é um desenvolvimento muito especial e raro no ser humano. Apenas quando a pessoa consegue ir além de sua situação imediata e se apoiando nos ombros de gigantes, sábios e filósofos do passado, consegue explorar com seu pensar e com suas percepções a natureza da realidade.


Como adultos precisamos nos responsabilizar por nossa auto-educação.

Aqueles que criticam a busca da verdade acusando-a de uma característica cultural recente estão em parte corretos, mas estão principalmente terrivelmente enganados sobre as consequências do que dizem. Sim a busca da verdade é um desenvolvimento recente e a própria noção de verdade tem sido construída e reconstruída, mas se esse pensamento é levado até o fim, ele nos leva a valorizar e cuidar dessa busca com ainda mais carinho, pois reconhecemos que apenas com o esforço de individualidades dedicadas a busca da verdade podemos encontrar as bases para a individuação espiritual ética e para a ciência e a técnica que reduzem o sofrimento e promovem o florescimento humano.


Precisamos sempre nos perguntar sobre o que estamos buscando e se isso que estamos buscando realmente vai trazer os resultados que queremos. Os resultados imediatos e os resultados tardios de uma ação são frequentemente diferentes e muitas vezes opostos por que as cadeias de causa e efeito se relacionam em sistemas complexos.


Esse é um ponto fundamental do pensamento sistêmico e do reconhecimento espiritual da interconexão entre tudo que existe. Um exemplo cotidiano é que quando comemos um bolo de chocolate nos sentimos bem no momento, sentimos o prazer momentâneo da mistura de gordura com açúcar, 20 minutos depois podemos nos sentimos com baixa de energia, a insulina dispara para reduzir a quantidade exagerada de açucar no sangue. Se comemos outro doce com gordura e repetimos esse procedimento em alguns meses estaremos muito mais desequilibrados e gordos.


Por isso estabelecemos valores, que são como padrões de qualidade ou expectativas sobre nossos comportamentos e o de outras pessoas. Atrelamos emoções de congruência ou incongruência com nossas ações dependendo se elas estão em acordo ou não com nossos padrões de qualidade, com nossos valores.


Por exemplo, talvez você tenha estabelecido uma identidade associada a moderação, ou esteja se preparando para um evento esportivo ou valorize com seriedade sua saúde, nesse caso você poderia ser tentado a comer o bolo de chocolate e não fazer por não olhar para o prazer imediato e sim para a vergonha ou culpa de quebrar uma de seus padrões de qualidade, ou simplesmente você olha para seu bem estar atual e pensa com vai se sentir bem quando chegar o evento esportivo para o qual está se preparando.


As emoções, são uma linguagem simples demais diante da complexidade da vida e precisam ser calibradas por intenções e objetivos claros

O ponto aqui não são os detalhes do exemplo, pois há uma infinidade de reações possíveis, o ponto é o mecanismo básico de como as emoções vão nos avisar se estamos saindo de nossos valores. Ou se outras pessoas estão quebrando nossas regras ou expectativas. Caso esse reconhecimento fosse apenas intelectual e não afetasse nossas emoções não teria a mesma tração para nosso comportamento.


As emoções, são uma linguagem simples demais diante da complexidade da vida e precisam ser calibradas por intenções e objetivos claros que por sua vez geram outras emoções que contrabalanceiam aquelas associadas aos impulsos mais básicos. Por isso precisamos dedicar nosso tempo e atenção à educação emocional e ao amadurecimento espiritual, para que nossas intuições e emoções nos auxiliem a direcionar a nossa vida à verdade, à bondade, à saúde e seja o que mais profundamente valorizamos.


Nossas intuições morais podem estar completamente descalibradas, se não temos clareza do que realmente vai nos trazer bem estar e o que realmente vai ajudar ao próximo podemos estar sendo influenciados em nossas emoções sem estar percebendo. Propagandas, ideologias, seitas, mediocridade, muitas forças inconscientes e destrutivas competem por nossa atenção e buscam condicionar os seres humanos ao seus baixos padrões que permitem a inoculação de seus memes no subconsciente das pessoas.


Precisamos sempre nos perguntar se o que estamos buscando realmente vai trazer os resultados que queremos.

Um exemplo que merece destaque é o ressentimento em relação ao mundo, muito comum que pessoas tenham transtornos de sofrimento e fanatismos associados a ideia de que não deveria ser do jeito que é. Uma reação emocional que prefere um mundo imaginado ao mundo de fato, pode ser uma utopia social ou uma outra forma de paraíso imaginado, mas têm em comum um pensar que parte da desconfiança de qualquer reconhecimento das coisas boas na vida que a vida tem.


A auto-educação assim é ponto crucial para termos intuições morais apropriadas. Em nossa sociedade ocidental, aprendemos na infância como nos comportar, graças a influências benéficas da ética no cristianismo e suas raízes no judaísmo e seu desenvolvimento na filosofia moral, bem como outras influências que acrescentam a esses valores como o budismo, o espiritismo kardecista, o candomblé, as religiões tradicionais dos povos originários e os diversos posicionamentos filosóficos, como agnosticismo, ateísmo, dualismo, materialismo, realismo metafísico, idealismo crítico, etc.


Meu compromisso é realizar um trabalho educativo-espiritual laico, que respeita e dialoga com as tradições e os diversos pontos de vista, mas que deixa as verdades absolutas para essas outras instâncias, incentivando que cada individualidade busque a verdade da maneira que mais faz sentido para si mesma. O Foco é então ajudar as pessoas a viverem em acordo com os valores que escolhe para si.


O ponto aqui é que essas influências nos chegaram na infância nos comportamentos que imitamos e foram levadas a seu amadurecimento espiritual maior ou menor dependendo do esforço consciente e pessoal de cada um. Como adultos precisamos nos responsabilizar por nossa educação moral e essa só pode se dar com a clareza de quais valores decidimos espelhar em nossas vidas, com quais objetivos decidimos colaborar, qual a estratégia que no momento estamos seguindo e se nossas emoções estão em alinhamento com percepções e procedimentos.


* Julio Lins tem dedicado sua vida ao estudo da meditação atenção-conscientização e da

ação centrada em valores. Médico, fundou o programa Atentamente.

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