5 ESTRATÉGIAS PARA LIDAR COM A RAIVA

Raiva descontrolada é uma das queixas mais frequentes das pessoas que procuram a meditação Atentamente. Ao iniciarem as práticas, elas relatam, em poucas semanas, muito mais controle. Depois de alguns poucos meses, relatam uma transformação completa da maneira com que lidam com esse sentimento. Elas percebem que a raiva ainda está lá, mas agora ela não assume mais o controle e vai embora sem grandes danos, até deixando algum alerta importante.


"Ao praticar essas estratégias, você consegue gerenciar a raiva no dia a dia, evitando ser raptado pelo seu lado mais primitivo."

Nesse artigo, vou explicar as cinco estratégias que são ensinadas no programa Atentamente para lidar com a raiva. Por raiva, me refiro a um amplo espectro de emoções que podemos também denominar em outros momentos como ódio, mágoa, ressentimento, irritação, impaciência, intolerância.


Todas essas emoções têm um “tom” em comum, a que estou chamando simplesmente de raiva.




Quero primeiro convidar você, leitor, a fazer uma reflexão sobre os perigos e desvantagens desse sentimento. Em algum momento chegamos a pensar que ela seja uma coisa boa, que nos dá energia extra ou que vai nos defender, literalmente ou simbolicamente, ao evidenciarmos algo em que acreditamos e que nos pareça importante.


O problema é que a raiva aumenta a energia e a excitação, mas reduz o foco, por isso acabamos agredindo as pessoas erradas, no momento errado e com uma atitude contraproducente.


Anos de dedicação a uma relação de cooperação na vida profissional podem ser desperdiçados por um momento de raiva, um precioso relacionamento de amizade ou afetivo pode ser colocado em cheque por um simples gesto, atitude ou palavras ditas em um momento de impulso.


Quando o ressentimento e a mágoa acumulados inflamam em ódio, vidas podem ser destruídas e, por isso, nunca devemos deixar a porta aberta para esse tipo de descontrole emocional que pode ferir a nós mesmos e aos outros. O que acontece no cérebro é que, quando somos tomados por esse sentimento, áreas superiores são excluídas do processamento de luta e fuga, e a pessoa passa a agir com sua parte mais primitiva do cérebro. Um caso muito comum e menos extremo, mas emocionalmente bastante destrutivo, é falar de forma áspera e inconveniente com as pessoas ao nosso redor: levantar a voz, dar “piti” em situações de trabalho, tomar decisões e pré-julgar algo ou alguém no ápice das emoções.


"Quando o ressentimento e a mágoa acumulados inflamam em ódio, vidas podem ser destruídas"

Precisamos ser capazes de reconhecer e mudar de rumo mesmo antes de falar ou fazer algo de que venhamos a nos arrepender. Essa reflexão é importante e ela já é parte da primeira abordagem para lidar com a raiva, procurando reconhecê-la como um veneno e desenvolver os antídotos para combatê-la. O principal deles é a paciência, que pode ser desenvolvida naturalmente ao praticar meditação mindfulness, que nos ajuda a trazer a atenção de volta para a respiração e a lidar com os incômodos.


Na gentileza conosco, encontramos a paciência.


A segunda estratégia é fazer amizade com a nossa raiva. Ter gentileza consigo não é ser uma pessoa boazinha o tempo todo, isso é falso, tenso e por isso perigoso. É preciso acolher o que acontece de verdade em nós, momento a momento. Querer “se livrar” da raiva é uma atitude agressiva consigo e que apenas a perpetua ainda mais. Se interessar pela raiva, ver o que está acontecendo agora para além do rótulo superficial. Pode começar direcionando a atenção com o auxílio das perguntas: Como estou me sentindo? Como é esta raiva? Que sensação estou tendo em meu corpo? Como estão meus pensamentos?


Ps: Não se preocupe, aceitar a raiva e permitir que ela siga mudando não aumenta a raiva, pelo contrário, diminui sua importância e força.


A razão disso é que ter raiva da raiva é ainda mais lenha para o fogo, além disso, quando você passa a observá-la, focando nos seus próprios fenômenos, a atenção sai por um momento do fator “causador’ da raiva, fazendo também com que reduza de intensidade.


A terceira estratégia é possível apenas quando já conseguiu fazer a segunda. Ao observar várias raivas e suas consequências, você pode perceber que há uma sensação no corpo característica do surgimento desse sentimento. Tem uma sensação em geral no peito para uns, já para outros, nos ombros ou nos braços, e se você conhecer essa sensação, poderá então estar atento para quando ela começar a surgir, antes mesmo de se deixar levar. Estar sensível ao corpo e conhecer a dança de sensações em sua relação com as emoções faz com que você perceba muito mais rápido a formação dos sentimentos. Quanto antes você perceber a raiva se formando, mais vai aprender sobre seu mecanismo e poderá, ao notar que está rumando para a perda de controle, mudar de rumo e escolher um outro caminho.


"Estar sensível ao corpo e conhecer a dança de sensações em sua relação com as emoções faz com que você perceba muito mais rápido a formação dos sentimentos."

A quarta estratégia se relaciona com o reconhecimento do pensar, de sua natureza e de seus efeitos. Durante uma semana inteira treine ao longo de todo o dia. Sempre que perceber qualquer sensação de estresse ou intensidade se acumulando, pergunte a si mesmo(a): “será que é da maneira que penso que é?”. Essa introdução à pergunta é muito importante para que as pessoas reconheçam as ideias subliminarmente associadas às situações do dia a dia. As pessoas em geral não percebem como os pensamentos são um elemento não observado de nossa experiência. São como as lentes dos óculos, quem os usa vê através deles, mas não veem as próprias lentes, olhar para o pensamento é como tirar o óculos e olhar as lentes.


A quinta é uma reflexão sobre si. Nos perguntamos: “Qual regra minha foi quebrada? Qual o mapa que tenho que não foi respeitado?”. Em geral, percebemos que regra foi diretamente, indiretamente ou simbolicamente quebrada, ou que acreditamos, equivocados por um momento, que tenha sido quebrada. Cada um de nós tem um mapa de significados que nos indicam como as pessoas e coisas devem ser e como elas não devem se comportar, uma noção implícita do que é adequado e inadequado.


Ao fazer essa reflexão algumas vezes, percebemos que estávamos enganados e a regra em questão não foi quebrada, ou que a regra é exagerada ou não se aplica à pessoa, não é importante etc.


Por outro lado, também podemos reconhecer que uma regra importante foi quebrada e precisamos agir. Nesse último caso, também ao reconhecer a regra quebrada, podemos dizer para a raiva “obrigado por apontar essa questão, vou tomar as providências sob minha governabilidade, pode ir”.


Ao praticar essas estratégias, você consegue gerenciar a raiva no dia a dia, evitando ser raptado pelo seu lado mais primitivo. Experimente e contribua para um pouco menos descontrole e um pouco mais de sabedoria no mundo.

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